Defesa de Direitos Humanos com foco principal na criança e adolescente

15/08/2010

Tem professor que sabe o conteúdo. Tem professor que além de saber o seu conteúdo, o entende perfeitamente dentro do contexto em que ele se fez conteúdo escolar. Tem professor que não sabe nenhuma dessas coisas e, portanto, para este, a eterna luta é a de se tornar “crítico”.

Toda a discussão da pedagogia, hoje em dia, pressupõe que o primeiro professor não pode vir a ser o segundo e que, não existindo o segundo, é necessário fabricar um terceiro, que seria o “professor crítico” ou o “professor reflexivo” ou o “professor crítico-reflexivo”. A discussão pedagógica sobre “formação de professores” assim posta está inexoravelmente presa ao “fetiche da crítica”.

“Fetiche da crítica” é uma expressão que ouvi da filósofa Susana de Castro, minha amiga e parceira de trabalho. Com tal expressão, em um colóquio em Porto Nacional (Tocantins), ela quis indicar que a “crítica” deixa de ser uma atividade para ser um elemento fetiche, isto é, algo que cria vida solitariamente, e que por si só pode, então, comandar as coisas em favor de resolver os problemas de nossa educação. É exatamente isso que pensam uma boa parte dos que discutem educação hoje em dia. Colocam o selo “crítico” nas costas de qualquer coisa e, então, esperam que tal selo, pela força da palavra mágica “crítico”, ponha tudo em movimento em favor do resgate de uma boa educação.

O “fetiche da crítica” é ideológico, é claro! Uma vez que ele se põe, sai de cena a possibilidade de entendermos que os próprios conteúdos, quando ministrados por um professor relativamente bem formado, já são inerentemente críticos. O que se esquece na maioria das discussões sobre o ensino médio é uma observação do deputado italiano marxista Antonio Gramsci, feita não para o ensino médio, mas para a escola primária: os conteúdos da escola básica, por eles mesmos, já são um rompimento com o senso comum. Ora, no ensino médio, isso é mais verdade ainda.

Quando um aluno toma contato com as três leis de Newton, o que ele entende (se entende as leis), é que o universo funciona de modo natural, e que nada que é sobrenatural pode intervir nele. Assim, mecanismos de causas, quando naturais, estão atrelados a essas leis, e tudo que foge da regras da gravitação universal é nada mais nada menos que candidato à mágica. Ora, essa informação da aula de física está bastante longe do senso comum, mesmo o senso comum de nosso tempo. O mesmo ocorre com a aula de matemática. Quando um aluno fica sabendo que uma função do tipo F(x)= x=1 é, no gráfico cartesiano, uma reta, ele visualiza que se trata de uma relação que coloca y e x em relação de proporção. Qualquer fenômeno em que dois termos se relacionem segundo essa lei, que é uma proporção, pode ser um fenômeno mapeado pelo olho da previsão de um modo bem fácil. O futuro, então, não é algo desconhecido. Ele pode ser previsto. Ora, também isso vai diretamente contra o nosso senso comum, inclusive o de hoje. A aula de história dá o mesmo tom: se estudamos a Revolução Francesa e ficamos sabendo que a autoridade do Rei não valeu nada diante dos revolucionários, que não acreditaram mais que ele, Rei, tinha sangue azul e era divino, já estamos diante de algo que rompe o senso comum, mesmo o de hoje. Afinal, quantos de nós atribuímos autoridade aos que se dizem falarem a língua dos deuses?  Quando falamos na aula de biologia sobre Darwin e Lamarck, o que estamos fazendo senão introduzindo um pensamento altamente sofisticado, que contraria a maior parte do senso comum, mesmo o atual – não é verdade?

Como podemos ver, é uma grande bobagem querer tornar o ensino médio crítico. Ele, pelos seus conteúdos, já é crítico. Ele já rompe com o senso comum, independentemente de nossa vontade. Não precisamos de nenhum elemento crítico sobre ele. Não precisamos de um professor batizado com o título de “crítico-reflexivo”. Qualquer professor, por mais conservador que possa se mostrar, se trouxe para a sala de aula o conteúdo da disciplina de modo correto, com todas as suas implicações conceituais, está em um terreno altamente crítico. Todo o conteúdo do ensino médio é uma revolução contra o senso comum. Talvez por isso mesmo, em boa medida, tenhamos evasão no ensino médio. Ele não é um rio que corre a favor do status quo, ele corre naturalmente contra. Por isso, ele soa estranho a uma boa parte dos jovens.

Muitos que pedem a transformação do ensino médio em técnico profissional querem com isso resolver o problema da evasão. Percebem, ainda que por vias não pouco claras, que a juventude não se adapta a esse grau de ensino. Não entendem que ela precisa se adaptar, pois é assim que irá se tornar moderna. Não! Eles querem tirar do ensino médio sua modernidade, seu núcleo científico e filosófico moderno e contestador. Como não podem assim fazer, pois o manuseio da tecnologia não se ensina sem algum contato com a ciência, acabam por criar um monstrengo. Logo depois, esse monstrengo passa a não servir para nenhum fim. Nada ensina de útil e também não resolve o problema da evasão. Torna-se, inclusive, um ensino caro que não consegue se expandir. Tudo dá errado. Devolvem então o ensino nas mãos dos que não concordaram com a transformação dele em técnico profissional. Estes, não raro, poderão não conseguir mais mudar as coisas e, então, irão propor a acoplagem do que se fez em termos de ensino técnico profissional ao trabalho de um novo professor, aquele que seria o professor “crítico-reflexivo”. Eis então a volta ao “fetiche da crítica”.

Sei que a trajetória será esta porque esse filme já passou no Brasil. Ele foi o filme falido da 5.692/71, que agora Dilma, Serra, Marina e todos falam por aí como sendo o que se deve fazer no ensino médio. Eles estão errados. Todos eles. Eles apenas estão abrindo a porta para daqui pouco tempo confessarem o fracasso e, então, darem espaço para os que vão falar da necessidade do professor “crítico-reflexivo”. Eles estão apenas plantando a semente de uma nova ideologia, a do “fetiche da crítica”.

©2010 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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