Defesa de Direitos Humanos com foco principal na criança e adolescente

Tássia Rabelo
Recentemente estava em um bar com um amigo que me mostrou uma bizarrice das antigas. Um episódio do quadro da TV Pirata denominado TV Macho apresentado por Guilherme Karan. O quadro em si já poderia ser visto com inúmeras ressalvas, pois tratava-se de uma sátira ao programa TV Mulher que, apesar de em geral reforçar uma visão conservadora do que é ser mulher, cumpriu um importante papel social ao quebrar vários tabus falando de sexo e orgasmo feminino na televisão, no quadro apresentado pela sexóloga Martha Suplicy.

 

No episódio em questão o apresentador do programa, Zeca Bordoada, entrevista Edicléia Carabina, personagem de Regina Casé que é chefe de uma torcida organizada do Botafogo que critica a diminuição da violência no futebol. Edicléia é apresentada como uma pessoa que, apesar de ser mulher, é merecedora da admiração dos telespectadores da TV Macho.

 

O que mais chamou minha atenção no episódio foi o seu desfecho. Quando questionada sobre seu olho roxo, Edicléia responde que após se queimar com óleo quente enquanto preparava a comida, começou a chorar e em seguida apanhou do marido sob a justificativa de que ela deveria parar de ser “fresca”. O programa é finalizado com afirmação dela de que: “meu lado mulher ta aí para isso né, para apanhar” seguida de uma fala entusiasta do apresentador que ressalta que ela é um grande exemplo a ser seguido em casa.

 

Após assistir esse vídeo, minha sensação foi um misto de indignação e de alívio diante do reconhecimento de que, em tempos de Lei Maria da Penha e ofensiva contra a violência doméstica, tal programa “humorístico” não seria visto como legítimo nos dias de hoje. Minha conclusão foi de que em pouco mais de vinte anos a luta das mulheres no Brasil avançou de tal forma que conseguiu alterar alguns padrões culturais há muito consolidados.

 

Infelizmente, bizarrices da atualidade me fizeram perceber que muito ainda precisa ser feito e que necessitamos ficar sempre alerta. Depois da polêmica que envolveu o humorista Danilo Gentili sobre uma piada que este havia feito sobre estupro, temos um novo fato em pauta.

 

O programa Zorra Total está exibindo um quadro que tem atingido picos de audiência nas noites de sábado, trata-se do “Metrô Zorra Brasil”. Em vários episódios do programa uma cena se repete. Um homem se encosta na personagem Janete e se aproveita lotação do vagão para bolinar a mulher de várias maneiras. Ao reclamar da situação com sua amiga esta responde que ela deveria aproveitar, pois não está podendo escolher.

 

Para muitos a crítica pode soar como preciosismo, mas na minha concepção, humor de verdade não deve servir para diminuir as pessoas, muito menos para disseminar práticas odiosas como o abuso sexual. Não tenho dúvida de que tal “piada” não tem a mínima graça para as mulheres que levantam cedo para ir ao trabalho, e que além de enfrentar um transporte público abarrotado, ainda convivem com abusos diários cometidos por pessoas que se aproveitam de uma situação de precariedade para agredir sexualmente o outro.

 

Recentemente, Brasil adentro e mundo a fora, nos organizamos na Marcha das Vadias. Fomos às ruas dizer que não aceitamos ser desrespeitadas, violentadas, assediadas e cerceada dos nossos direitos por ser mulher. Nesse momento cabe a nós divulgar as manifestações contrárias, abarrotar as caixas de e-mails dos editores do programa e se necessário ir novamente as ruas para dizer a Rede Globo que é inadmissível que semanalmente uma das formas de abuso mais recorrentes em nosso país seja naturalizada e transformada em chacota.

 

Não há revolução social sem revolução cultural. Esses não são os únicos casos em que a TV brasileira cumpre o papel de perpetuar signos do sistema patriarcal, racista e heteronormativo. Seguir nos omitindo diante de situações como essas é impedir a construção de uma sociedade em que o respeito pelo outro seja de fato o principal valor a guiar nossas ações.

 

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”

                                                                   Rosa Luxembrugo

 

Tassia Rabelo é membro da Executiva Nacional da Juventude do PT e militante do movimento Fora da Ordem.

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