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Criança, a alma do negócio. Um debate sobre consumismo e publicidade na infância,

Publicado originalmente em Paulo Teixeira 13

Londres em chamas: “Problemas sociais jamais serão controlados pelo toque de recolher”, diz Bauman

De O globo:

Um dos mais influentes acadêmicos europeus, já descrito por alguns comentaristas mais entusiasmados como o mais importante sociólogo vivo da atualidade, o polonês Zygmunt Bauman viu nos distúrbios de Londres uma aplicação prática de suas teorias sobre o papel do consumismo na sociedade pós-moderna. Um assunto que o acadêmico, radicado em Londres desde 1968, quando deixou a Polônia após virar persona non grata para o regime comunista e por conta de uma onda de anti-semitismo no país, explorou bastante em conjunção com as discussões sobre desigualdade social e ansiedade de quem vive nas grandes cidades.

Aos 85 anos, autor de dezenas de livros, como “Amor líquido” e “O mal-estar da pós-modernidade”, Bauman não dá sinais de diminuir o ritmo. Há cinco anos, no lançamento de “Vida para Consumo”, uma de suas obras mais populares, fez uma turnê por vários países. Em entrevista ao GLOBO, por e-mail, ele afirma que as imagens de caos na capital britânica nada mais representaram que uma revolta motivada pelo desejo de consumir, não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social.

O GLOBO: O quão irônico foi para o senhor ver os distúrbios se concentrando na pilhagem de roupas e artigos eletrônicos?

ZYGMUNT BAUMAN: Esses distúrbios eram uma explosão pronta para acontecer a qualquer momento. É como um campo minado: sabemos que alguns dos explosivos cumprirão sua natureza, só não se sabe como e quando. Num campo minado social, porém, a explosão se propaga, ainda mais com os avanços nas tecnologias de comunicação. Tais explosões são uma combinação de desigualdade social e consumismo. Não estamos falando de uma revolta de gente miserável ou faminta ou de minorias étnicas e religiosas reprimidas. Foi um motim de consumidores excluídos e frustrados.

O GLOBO:Mas qual a mensagem que poderia ser comunicada?

BAUMAN: Estamos falando de pessoas humilhadas por aquilo que, na opinião delas, é um desfile de riquezas às quais não têm acesso. Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população.

O GLOBO:Trata-se de um desafio a mais para as autoridades na tarefa de acalmar os ânimos, não?

BAUMAN: O governo britânico está mais uma vez equivocado. Assim como foi errado injetar dinheiro nos bancos na época do abalo global para que tudo voltasse ao normal – isso é, as mesmas atividades financeiras que causaram a crise inicial – as autoridades agora querem conter o motim dos humilhados sem realmente atacar suas causas. A resposta robusta em termos de segurança vai controlar o incêndio agora, mas o campo minado persistirá, pronto para novos incêndios. Problemas sociais jamais serão controlados pelo toque de recolher. A única solução é uma mudança cultural e uma série de reformas sociais. Senão, a mistura fica volátil quando a polícia se desmobilizar do estado de emergência atual.

O GLOBO:Jovens de classe baixa reclamam demais da falta de oportunidades de trabalho e educação. O senhor estranhou não ter visto escolas pegando fogo, por exemplo?

BAUMAN: Qualquer que seja a explicação dada por esses meninos e meninas para a mídia, o fato é que queimar e saquear lojas não é uma tentativa de mudar a realidade social. Eles não se rebelaram contra o consumismo, e sim fizeram uma tentativa atabalhoada de se juntar ao processo. Esses distúrbios não foram planejados ou integrados, como se especulou no início. Tratou-se de uma explosão de frustração acumulada. Muito mais um porquê que um para quê.

O GLOBO:Mesmo o argumento de protesto contra os cortes de gastos do governo não deve ser levado em conta?

BAUMAN: Até agora, não percebi qualquer desejo mais forte. O que me parece é que as classes mais baixas querem é imitar a elite. Em vez de alterar seu modo de vida para algo com mais temperança e moderação, sonham com a pujança dos mais favorecidos.

O GLOBO:Mais problemas são inevitáveis, então?

BAUMAN: Enquanto não repensarmos a maneira como medimos o bem-estar, sim. A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material e isso só tende a criar mais problemas em sociedades em que a desigualdade está em crescimento, como no Reino Unido.

COMO VICIAR NOSSAS MENINAS EM 300 MIL LIÇÕES

Direto do blog Escreva Lola Escreva

Os tempos definitivamente mudaram, só não tenho certeza se foram pra melhor. Tipo, quando eu era criança, não havia ninguém na minha turminha que tingisse o cabelo. E talvez até fosse divertido encher o rosto de blush, mas uma coisa era atacar o estojo de maquiagem da mamãe quando não tinha ninguém olhando, outra era ter o seu próprio estojo, e ficar se checando no espelho o tempo todo. Era extremamente raro alguma menininha adotar esse estilo de vida nos anos 70.
Já hoje é assim: há spas para crianças, e esses spas incluem, além da dieta obrigatória, tirar sobrancelhas e fazer depilação preventiva (lógico, porque assim como ninguém faz dieta pra ficar bonita, só pra ficar saudável, todo esse ritual da aparência não é visto como uma imposição estética, mas higiênica: é sujo ter pelos). Uma grande rede de supermercados acabou de lançar toda uma linha de maquiagem para meninas de 8 a 12 anos, as chamadas tweens (consumidoras no limiar entre a infância e a adolescência). Nos EUA, tweens já gastam cem milhões de dólares por mês em produtos de beleza (e olha que não vou nem mencionar essa praga de concurso de miss pra garotas de 5 anos). As meninas não falam mais em diversão como motivo para copiarem mulheres adultas. Hoje elas dizem que querem ser sexy, mas ser sexy pra quem aos nove anos? Pra si? Pra meninos que nessa fase ainda nem têm interesse pelo sexo oposto? Pra pedófilos?
Tem mais: as cirurgias plásticas para menores de 18 anos dobraram nos EUA na última década. Mais um dado: em 2005, a média de idade das americanas para começar a usar produtos de beleza era 17 anos. Apenas quatro anos depois, essa média já tinha caído pra 13 anos. Outro: uma estimativa aponta que meninas entre 11 e 14 anos são expostas a uma média de 500 anúncios por dia. Imagina o que isso faz pra autoestima.
Por aqui, segundo um estudo da Universidade Federal do Pernambuco, 90% das brasileirinhas entre 10 e 14 anos se acham gordas e fazem regime. Olha só que idade propícia pra se desenvolver doenças gravíssimas como bulimia e anorexia!
A revista Newsweek analisou as últimas tendências de beleza e constatou que uma menina americana de 10 anos, ao chegar aos 50, terá torrado quase 300 mil dólares — só com o seu cabelo e seu rosto! Vamos nos concentrar somente no que uma mocinha gasta com pedicure e manicure, e já dá pra pagar quatro anos de universidade nos EUA (e olha que universidade americana é quase tão cara quanto creminho anti-idade). Se essas meninas já estão obcecadas com rugas imaginárias aos oito anos, não quero nem pensar no que farão quando chegarem a uma idade em que rugas realmente existam.
Pareço exaltada? Pois é. Ainda estou esperando que alguém me explique que isso é bom pras meninas. Tem quem veja minhas queixas como uma tentativa ditatorial de lutar contra o consumismo. As garotas deveriam ter a liberdade de escolher o que consumir, ué. Mas de qual livre arbítrio estamos falando, cara pálida? Não há mais opção. Tente encontrar sapato sem salto para sua filhinha de seis anos, e depois a gente volta a conversar.
Sabe como lanchonetes de fast food anexam brinquedos aos seus hamburguers para que as crianças se tornem consumidoras pra vida toda? Quanto antes se fisga um cliente, mais fiel ele será ― de preferência, pro resto de sua miserável existência. Como isso é diferente de convencer meninas de cinco anos que elas não estarão completas se não estiverem usando batom? Vou fazer analogia com cigarro, se me permite. Por que quase todos os países proibiram propaganda que seduzisse os menores de idade a fumar? Porque ela funciona! Por exemplo, nos EUA, o personagem da marca Camel, Joe Camel, teve de ser extinto, por ser popular demais entre as crianças. E por que a indústria do cigarro tenta cativar seu consumidor quando ele é assim tão novinho? Porque ele tem menos acesso a campanhas anti-tabagistas, e menor poder de discernimento. Ele é mais facilmente influenciável. Dessa forma, esse consumidor-mirim crescerá associando os bons momentos da sua juventude com cigarro.
Certo, no cigarro, pra solidificar o vício, os fabricantes incluem nicotina e mil e um produtos tóxicos que fazem deixar de fumar algo muito, muito difícil. Ah, dirá você, mas fabricantes de produtos de beleza, ao alvejarem as menininhas, não se valem de substâncias viciantes. Não mesmo? Centenas de imagens por dia e toda uma associação de beleza com felicidade e aceitação (e, hoje em dia, com saúde e higiene!) não são viciantes? Pra mim isso soa como lavagem cerebral. Ah, mas dirá você novamente, cigarro faz mal pra saúde, já está provado, enquanto usar produtos de beleza, não. Bom, não sei, acho que é péssimo pruma sociedade submeter metade de sua população a uma ditadura da beleza, ainda mais quando essa metade é justamente a que ganha menos, e forçá-la a dedicar enorme parcela de seus rendimentos a produtos sem fiscalização, que geralmente nem cumprem o que prometem. Pra ser bonita, tem que consumir (não existe mulher feia, só existe mulher pobre, diz o ditado elitista). Pra ser feliz, tem que ser bonita. Pra ser mulher, tem que ser feminina (leia-se vaidosa). Isso tudo a gente ensina a nossas meninas desde a mais tenra idade. Sinceramente? Esses bombardeios eternos me parecem mais viciantes que uma fumacinha com nicotina.
Posted by lola aronovic

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