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Casamento homossexual, Hélio Bicudo e a noção de “pseudo-família”

13/04/2011

Dois leitores acham que um terceiro leitor, o Jesuíno (vide texto), que criticou o que chamou de “Kit Gay” porque este estaria ensinando que temos de chamar Maria de João e João de Maria, está falando a mesma coisa que o Dr. Hélio Bicudo, que se posiciona contra o casamento de pessoas do mesmo sexo (Vide texto). Esses dois leitores são Wesley e Paulo Vitor. Tudo indica que eles não entenderam três coisas: não apreenderam o que o governo quer, o que Jesuíno disse e no que Hélio Bicudo se baseia.  Infelizmente, mais uma vez, como minha paciência é quase infinita, vou explicar.

O que a maioria dos que estudam questões homossexuais dizem é que alguém pode assumir a identidade de gênero que quiser. O ex-Presidente da República trocou de nome. Ele não tinha “Lula” no nome. Depois, em função da política, colocou o apelido dentro de nome. Foi um segundo batismo. No cartório. As razões foram eleitorais. Agora, caso ele fosse um transsexual e quisesse tirar a barba, colocar silicone e, enfim, ter sua identidade como Izilda, não teria de haver problema nenhum. Uma vez na escola, solicitando aos colegas e professores que o identificassem por Izilda, deveria ser atendido. É isso. É assim que se deve fazer.

Jesuíno, o homofóbico que postou coisas aqui contra mim, não consegue entender isso. Ele imagina que a ciência e o Estado brasileiros, unidos, estão falando bobagem ao endossar posturas como essas que estão no que chamou de “Kit Gay” do governo. Os argumentos dele são uma proliferação de preconceitos – bolsonarisses em tempos de reações bárbaras. Já comentei isso tudo aqui neste blog. Não vou fazer novamente.

Agora, a posição do Wesley e o Paulo Vitor são diferentes de tudo isso. Eles acharam Na Internet um discurso do Hélio Bicudo que, baseado na doutrina católica, tenta mostrar que a legalização do casamento gay está ligada ao endosso de uma noção de “pseudo-família”, e que isso, indiretamente, atenta contra a vida do mesmo modo que a legalização do aborto.  Paulo Vitor e Wesley acham que se eu chamei Jesuíno de homofóbico, deveria fazer o mesmo com Hélio Bicudo, e que só não faço isso porque o Dr. Hélio é meu amigo. Mas, Wesley e Vitor não entenderam nenhum dos três casos. Eles estão tentando aproximar o distante, por falta de filosofia.

O documento do governo não está baseado em “ciência”’. Não há ciência do homossexualismo.  O texto de Jesuíno, ao falar do Conselho de Psicologia, atribuindo a este uma posição científica definitiva sobre casamento gay, é uma bobagem. Jesuíno não sabe do que fala o Conselho de Psicologia. O Conselho jamais quis dar uma “última palavra” sobre homossexualismo. Apenas quis dizer que o status quo de outrora, que provocava a condenação moral – e legal – ao homossexualismo baseada no diagnóstico médico, que dizia que homossexualismo era uma doença, não está mais vigente. A lei mudou. Mudou por consenso político, não por “ciência”.

Agora, a posição do Dr. Hélio é diferente de tudo isso. Ele está dizendo que na concepção católica um casal homossexual, como não pode ter filhos naturais (ainda), termina por ser uma “pseudo-família”.  Em certo sentido, ele está correto. Mesmo que um casal homossexual adote uma criança, ainda assim, o resultado não seria a composição de uma família tradicional, no sentido do entendimento da Igreja Católica. Assim, a posição do Dr. Hélio nada tem de homofóbica. Ele, como jurista, está separando o que é do âmbito privado, que é o relacionamento sexual, do que é do âmbito público, que é o casamento e constituição de família. Podemos ler o parecer do Dr. Hélio da seguinte forma: sexo se faz em casa, com quem você quiser, agora, família não vive só dentro de casa, ela é uma entidade com faceta pública, e a sociedade, então, pode querer dizer para si mesma o que é família. O que é família para a sociedade brasileira? Ora, houve um debate sobre isso? Não! Como não houve, o Dr. Hélio Bicudo pode, então, por sua opinião como membro da sociedade brasileira, que, no caso, retrata também a comunidade católica. É o que ele fez.

Ora, ao fazer isso, o Dr. Hélio está agindo democraticamente. E até mais democraticamente que os grupos de pressão que atuam no Congresso, a favor do casamento gay. Pois, assim agindo, o Dr. Hélio permite a um filósofo como eu vir aqui e dizer que talvez seja o caso, sim, de olharmos para a sociedade e vermos o que é que estamos entendendo por família.

Particularmente, minha posição é que a noção de família pode abarcar um casal de mesmo sexo cuidando de uma criança. Duas mulheres ou dois homens podem, caso assim o desejem, adotar uma criança (aliás, acho até que, no futuro, um animal poderá adotar uma criança, como os fundadores de Roma, que foram criados por uma loba, ou como meninos autistas, que estão vivendo melhor com cães). Ninguém é tolo de achar que a criança vai ter de chamar um de pai e o outro de mãe. A criança pode muito bem aprender a chamá-los pelos nomes ou como eles a ensinarem. Ela pode muito bem colher seus modelos de “masculino” e “feminino” ou qualquer outro modelo de vários elementos da sociedade. Nenhuma criança aprende ser “menina” ou “menino” só com os pais, aprende com os colegas, vizinhos, tias, tios, filmes e, principalmente, professores. Aprende com quem ela admira.  Que elas admirem gente que é inteligente, de mente aberta, honesta etc. Pronto. É isso.

A Igreja Católica teme que a criança não tenha boa formação se há dois homens ou duas mulheres em casa, e não o tradicional “papai e mamãe”. Mas isso porque a Igreja Católica, aliás como Kant , mas com fundamentos diferentes, vê o sexo entre as pessoas como só legítimo no casamento, e este, como sendo uma instituição que abriga um homem e uma mulher com o objetivo de geração de crianças. Neste ponto, a Igreja apela para o dogma da doutrina, enquanto que Kant apelaria para o argumento da razão e do imperativo categórico: ele diria que o casamento gay não poderia ser universalizado e, não podendo ser universalizado (pode-se discutir isso, o que não é o caso aqui), ocorreria, mas não seria moral.

Deixando Kant de lado e ficando só com a posição da Igreja Católica, teríamos então de conversar sobre o dogma da doutrina católica. Dogmas assim são discutidos, entre os pensadores católicos, a partir da reflexão de seus filósofos já mortos e, também, a partir da exegese bíblica.  O problema, então, acabaria por chegar a tocar a questão da moralidade ou não da vida homossexual. Nesse aspecto, já não estaríamos mais falando do texto do Dr. Hélio Bicudo. Pois, em nenhum momento, o texto dele, invocado por Wesley e Vitor, diz respeito a esse assunto. O texto dele fica circunscrito à idéia de “pseudo-família”. Sendo assim, entrar por assuntos que poderiam ou não trazer à tona questões como, por exemplo, algum preconceito homofóbico, não seria honesto. Não quanto a este texto do Dr. Hélio.

Em síntese, no que cabe num blog, é isso. Para inteligentes, esse texto meu aqui é suficiente.

© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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O “prof crítico” ou o “prof reflexivo” ou o “prof crítico-reflexivo”. A discussão pedagógica sobre “formação de professores” assim posta está inexoravelmente presa ao “fetiche da crítica”.

15/08/2010

Tem professor que sabe o conteúdo. Tem professor que além de saber o seu conteúdo, o entende perfeitamente dentro do contexto em que ele se fez conteúdo escolar. Tem professor que não sabe nenhuma dessas coisas e, portanto, para este, a eterna luta é a de se tornar “crítico”.

Toda a discussão da pedagogia, hoje em dia, pressupõe que o primeiro professor não pode vir a ser o segundo e que, não existindo o segundo, é necessário fabricar um terceiro, que seria o “professor crítico” ou o “professor reflexivo” ou o “professor crítico-reflexivo”. A discussão pedagógica sobre “formação de professores” assim posta está inexoravelmente presa ao “fetiche da crítica”.

“Fetiche da crítica” é uma expressão que ouvi da filósofa Susana de Castro, minha amiga e parceira de trabalho. Com tal expressão, em um colóquio em Porto Nacional (Tocantins), ela quis indicar que a “crítica” deixa de ser uma atividade para ser um elemento fetiche, isto é, algo que cria vida solitariamente, e que por si só pode, então, comandar as coisas em favor de resolver os problemas de nossa educação. É exatamente isso que pensam uma boa parte dos que discutem educação hoje em dia. Colocam o selo “crítico” nas costas de qualquer coisa e, então, esperam que tal selo, pela força da palavra mágica “crítico”, ponha tudo em movimento em favor do resgate de uma boa educação.

O “fetiche da crítica” é ideológico, é claro! Uma vez que ele se põe, sai de cena a possibilidade de entendermos que os próprios conteúdos, quando ministrados por um professor relativamente bem formado, já são inerentemente críticos. O que se esquece na maioria das discussões sobre o ensino médio é uma observação do deputado italiano marxista Antonio Gramsci, feita não para o ensino médio, mas para a escola primária: os conteúdos da escola básica, por eles mesmos, já são um rompimento com o senso comum. Ora, no ensino médio, isso é mais verdade ainda.

Quando um aluno toma contato com as três leis de Newton, o que ele entende (se entende as leis), é que o universo funciona de modo natural, e que nada que é sobrenatural pode intervir nele. Assim, mecanismos de causas, quando naturais, estão atrelados a essas leis, e tudo que foge da regras da gravitação universal é nada mais nada menos que candidato à mágica. Ora, essa informação da aula de física está bastante longe do senso comum, mesmo o senso comum de nosso tempo. O mesmo ocorre com a aula de matemática. Quando um aluno fica sabendo que uma função do tipo F(x)= x=1 é, no gráfico cartesiano, uma reta, ele visualiza que se trata de uma relação que coloca y e x em relação de proporção. Qualquer fenômeno em que dois termos se relacionem segundo essa lei, que é uma proporção, pode ser um fenômeno mapeado pelo olho da previsão de um modo bem fácil. O futuro, então, não é algo desconhecido. Ele pode ser previsto. Ora, também isso vai diretamente contra o nosso senso comum, inclusive o de hoje. A aula de história dá o mesmo tom: se estudamos a Revolução Francesa e ficamos sabendo que a autoridade do Rei não valeu nada diante dos revolucionários, que não acreditaram mais que ele, Rei, tinha sangue azul e era divino, já estamos diante de algo que rompe o senso comum, mesmo o de hoje. Afinal, quantos de nós atribuímos autoridade aos que se dizem falarem a língua dos deuses?  Quando falamos na aula de biologia sobre Darwin e Lamarck, o que estamos fazendo senão introduzindo um pensamento altamente sofisticado, que contraria a maior parte do senso comum, mesmo o atual – não é verdade?

Como podemos ver, é uma grande bobagem querer tornar o ensino médio crítico. Ele, pelos seus conteúdos, já é crítico. Ele já rompe com o senso comum, independentemente de nossa vontade. Não precisamos de nenhum elemento crítico sobre ele. Não precisamos de um professor batizado com o título de “crítico-reflexivo”. Qualquer professor, por mais conservador que possa se mostrar, se trouxe para a sala de aula o conteúdo da disciplina de modo correto, com todas as suas implicações conceituais, está em um terreno altamente crítico. Todo o conteúdo do ensino médio é uma revolução contra o senso comum. Talvez por isso mesmo, em boa medida, tenhamos evasão no ensino médio. Ele não é um rio que corre a favor do status quo, ele corre naturalmente contra. Por isso, ele soa estranho a uma boa parte dos jovens.

Muitos que pedem a transformação do ensino médio em técnico profissional querem com isso resolver o problema da evasão. Percebem, ainda que por vias não pouco claras, que a juventude não se adapta a esse grau de ensino. Não entendem que ela precisa se adaptar, pois é assim que irá se tornar moderna. Não! Eles querem tirar do ensino médio sua modernidade, seu núcleo científico e filosófico moderno e contestador. Como não podem assim fazer, pois o manuseio da tecnologia não se ensina sem algum contato com a ciência, acabam por criar um monstrengo. Logo depois, esse monstrengo passa a não servir para nenhum fim. Nada ensina de útil e também não resolve o problema da evasão. Torna-se, inclusive, um ensino caro que não consegue se expandir. Tudo dá errado. Devolvem então o ensino nas mãos dos que não concordaram com a transformação dele em técnico profissional. Estes, não raro, poderão não conseguir mais mudar as coisas e, então, irão propor a acoplagem do que se fez em termos de ensino técnico profissional ao trabalho de um novo professor, aquele que seria o professor “crítico-reflexivo”. Eis então a volta ao “fetiche da crítica”.

Sei que a trajetória será esta porque esse filme já passou no Brasil. Ele foi o filme falido da 5.692/71, que agora Dilma, Serra, Marina e todos falam por aí como sendo o que se deve fazer no ensino médio. Eles estão errados. Todos eles. Eles apenas estão abrindo a porta para daqui pouco tempo confessarem o fracasso e, então, darem espaço para os que vão falar da necessidade do professor “crítico-reflexivo”. Eles estão apenas plantando a semente de uma nova ideologia, a do “fetiche da crítica”.

©2010 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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