Defesa de Direitos Humanos com foco principal na criança e adolescente

Posts marcados ‘Industria Cultural’

Lugares e Não Lugares do Carnaval de Salvador

Logo na quarta-feira de cinzas foi divulgada a pesquisa sobre a exposição, em tempo de televisão, de algumas das atrações do carnaval deste ano. Foram três as categorias pesquisadas e elencadas: Bandas, Blocos e Trios, Camarotes e Artistas. As informações foram emblemáticas e me chamaram atenção por revelarem questões que se referem não apenas ao carnaval, mas a realidade cotidiana de Salvador. Com efeito, o terceiro colocado no ranking de Blocos e Trios mais vistos, dentre as 24 emissoras locais e nacionais no período de 16 a 21 de fevereiro, foi o Bloco Afro Ilê Aiyê e o décimo colocado foi o Afoxé Filhos de Gandhy, na mesma categoria. Antes do Ilê aparecem apenas o Bloco Eva, de Saulo Fernandes e o Coruja, de Ivete Sangalo.

Os dados relativos ao tempo de exposição midiática, de duas das mais tradicionais agremiações da cultura negra da cidade, resistentemente inseridas dentre aqueles que hegemonizam a comunicação, em tempos de sociedade de informação, nos remete a conclusão de que, o sustentaculo, do ponto de vista conceitual e de conteúdo cultural, do chamado moderno carnaval de Salvador, inclusive, do circuito Barra-Ondina, ainda é o grande manancial cultural vindo das mais diversas partes da cidade, principalmente da periferia de pretos e de pobres que, infelizmente, vem sendo apropriado e expropriado, acentuadamente nos últimos vinte e cinco anos, paralelamente a tentativa de dar à chamada axé music, uma conotação cultural maior do que de fato ele sempre foi: uma síntese relativamente tosca de uma profusão de coisas que acontecem anualmente, em todos os cantos de Salvador e que nas últimas três décadas vem sendo utilizada de forma paste urizada “vendida em embalagens plásticas” a cada ano por uma nova sensação do verão.

A questão fundamental nisso tudo e diferencial deste carnaval de 2012, é que a despeito da pujança mercantilista que se transformou o carnaval dos blocos de “gente bonita” e de “camarotes sofisticados” do circuito Barra-Ondina é que, pela ótica cultural e de conteúdo do carnaval stricto senso, esse modelo simplesmente mostra claros sinais de esgotamento e esse ano parece ser um divisor de águas. A ida do Chiclete com Banana, por exemplo, para abertura do carnaval do centro da cidade deve ser vista por dois ângulos muito bem definidos e que concorrem para essa compreensão.

O primeiro deles diz respeito à questão econômica. Só foi possível levar uma das mais caras e principais atrações para abertura da folia momesca, porque o carnaval de Salvador consegue financiamento para todas aquelas atrações que os seus organizadores julguem necessário, quando realmente querem. Aliás, o financiamento privado do carnaval soteropolitano deve ser alvo de uma profunda reavaliação e discussão com a sociedade, visto que as externalidades negativas para a cidade produzidas nesse período, devem ser incorporadas ao custo da festa e consequentemente ao orçamento necessário não só para sua realização, mas também, para sua manutenção/reforma antes e depois dos dias de Momo.

Por outro lado, a ida do Chiclete para o centro da cidade sem as cordas – que foi muito propalado pela organização e mídia como algo inovador nesse ano – foi apenas um detalhe, mesmo porque, as cordas do Nana, do Camaleão e do Voa Voa, blocos que eles puxam durante o carnaval, servem apenas para apartar os seus associados dos foliões pipoca (pretos e pobres em sua maioria) e garantir os lucros altíssimos das vendas dos abadás que na verdade são apenas over head financeiro uma vez que esses blocos entram na avenida não só totalmente financiados para o desfile, mas com caixa suficiente para bancar seus camarotes suntuosos no circuito Barra-Ondina.

O segundo aspecto pode ser introduzido com a seguinte pergunta: o que o Chiclete foi fazer no centro da cidade na abertura do carnaval? Se observarmos o custo-benefício para o carnaval como um todo, as poucas horas de show da banda serviram simplesmente para que eles levassem os filhos para mostrar um lugar onde antes pulsava um carnaval mais genuíno em Salvador: a Praça Castro Alves. A questão que nos intriga é que nem o público da Castro Alves tem nada a ver com os novos camaleõezinhos e muito menos aqueles meninos tem nenhuma afinidade com aquele lugar, nem com as características de hoje e muito menos as de outrora. Se esse meu questionamento é verdadeiro, outra pergunta se faz necessária: por que o Chiclete não foi se encontrar com o trio de Armandinho ou mesmo o Olodum, grupos estes que tem afinidade com a Praça do Povo, não apenas histórica, mas a inda, no caso especifico do Olodum que passa pela Castro Alves, vindo do Pelourinho, há trinta e dois anos, na sexta-feira de carnaval?

Mesmo que o real interesse tenha sido fazer tão somente mais uma casadinha da dinastia camaleônica em termos comerciais na abertura do carnaval; do ponto de vista do conteúdo da folia, não poderia ser feito algo tão asséptico considerando toda a nossa cultura carnavalesca e é nesse sentido que os dados de exposição de mídia são reveladores, uma vez que nem mesmo decisões como esta (equivocada do meu ponto de vista), conseguiu retirar de forma integral a importância que tem as manifestações mais genuínas do carnaval muito bem representados na pesquisa pelo Ilê e pelo Gandhy.

Esses dados são reveladores e exemplos evidentes de uma realidade que há muito a grande mídia local e os grandes interesses comerciais e políticos, por trás da festa de momo na cidade, procuram esconder da forma mais cínica possível: que a força do carnaval da Bahia está na marca indelével da cultura negra impressa, direta ou indiretamente, em todas as suas dimensões. Rara são as vezes que a música, o ritmo, a dança ou quaisquer outras “novidades” do carnaval não sejam fruto da criatividade e, principalmente, da síntese de tradições dos Blocos Afros, dos Afoxés e demais manifestações cotidianas da cultura afro-baiana. Por outro lado, cabe salientar que, apesar de culminarem no período do carnaval, todas essas manifestações, são construídas a partir de um sem número de ações e atividades que passam pela religiosidade, por ações sociais e arranjos produtivos da “economia de sobrevivência” que, em muito dos casos, se c onfundem com aquilo que recentemente passou a circular nos meios mais intelectualizados como economia criativa da cidade e que se espalha por lugares que a grande mídia e os interesses comerciais mais ortodoxos (e pouco inteligentes) procuram esconder desesperadamente ou, no máximo, olham de soslaio.

Engana-se, desta forma, quem pensa que as novidades  de Salvador surgem apenas do carnaval e do Pelourinho. Ao contrário, a despeito de ser uma espécie de vitrine para muitas dessas inovações, tanto o carnaval quanto o pelô são apenas uma parte (muito importante, mas apenas parte) da história. Os outros pedaços dessa trama estão na periferia da cidade ou  até mesmo na periferia do próprio Pelourinho, uma vez que dependendo do dia da semana acontecem diversas manifestações artísticas que vão da literatura à poesia, passando pela “black music” de todos os tons e não apenas o axé e o pagode, que muitos desavisados sequer imaginam que existem mas que, a despeito da invisibilidade de todo esse caldeirão da cultural local, o que se observa é que é desse mosaico que saem não somente as musicas do carnaval, mas o ethos da folia de Salvador que não é, necessariamente, aquele que as televisões tentam focalizar  no período específico da festa, em particular, o que ocorre de quinta a sábado da Barra-Ondina.

A pista do que vai ocorrer nos circuitos da folia começa a ser dada nas festas populares de verão, nos ensaios dos blocos afro, afoxés, blocos de samba e de pagode. Toda a negrada de Salvador sabe o que vai “bombar” no carnaval antes mesmo que os pseudo articulistas da cultura sequer saibam o que está acontecendo e isso ocorre por um detalhe muito simples: a cultura negra de Salvador acontece em lugares em que se conhece, se convive e se vive, de fato, durante todo o ano e não apenas no período do carnaval e sob os olhos de estrangeiros “locais” e do exterior nos pontos turísticos das cidade. No que se refere aos blocos afros, por exemplo, quem quiser saber o que está acontecendo e o que vai acontecer é só ir ao Curuzu, a Itapoan, a Pirajá, a Periperi, ao Monte Belém ou andar pelo Pelourinho de segunda a segunda e não apenas na terça da benção. Isso se dá porque Olodum, Gandhy e outros blo cos, por exemplo,  moram no Pelô como o Ilê, o Malê e o Cortejo, moram no Curuzu, Itapoan e Pirajá, respectivamente. Nesse aspecto, já nos ensinava Milton Santos que a importância do lugar enquanto uma categoria de análise do espaço habitado se dá exatamente porque é nos lugares que o homem mora e por morar nos lugares é que viver e conviver com sustentabilidade e bem estar passam a ser elementos-chave de um processo efetivo de  desenvolvimento. É isso que sustenta o carnaval, mas não tem dado sustentabilidade econômica aos principais atores responsáveis pela sua produção.

Observa-se, claramente, nesse contexto, a origem da matéria-prima de tudo que é produzido de conteúdo criativo, de valor agregado e diferencial competitivo da maior festa popular do Estado da Bahia e a questão que deve ser colocada de forma muito contundente é: onde moram os chamados blocos de trio que auferem a maior parte da riqueza produzida e distribuída antes, durante e depois, a pretexto do nosso carnaval?

É óbvio que várias das observações feitas nesse sentido já foram fruto de análises e publicações motivadas pelos mais diversos interesses. O que aqui quero pontuar com a ênfase necessária para atrair mais uma reflexão sobre esse debate, é que mesmo com todo o aparato midiático, comercial e financeiro durante todo o período antes do carnaval, inclusive, com as mais diversas incursões televisivas, os grupos, os artistas e as bandas que conseguem hegemonizar o carnaval do ponto de vista econômico, não conseguem totaliza-lo do ponto de vista da cultura e do conteúdo mais profundo da festa.

Os dados revelam apenas dois dos mais importantes representantes da cultura negra de Salvador, o Ilê Aiyê e os Filhos de Gandhy, entretanto um olhar mais atento observará que o moderno carnaval de Salvador só sobrevive em virtude do que é produzido nos lugares da cidade onde ainda existem os verdadeiros mananciais da nossa cultura. O bloco EVA, por exemplo, que foi o mais visto, de acordo com a pesquisa, neste ano de 2012, além de ter emplacado o hit (Circulô) composto pelo Negão, Magary Lord, trabalhou toda sua estratégia de verão (inclusive o próprio Festival de Verão) à luz do que eles chamaram de Conexão Tambor, parabéns para eles, mas será que foi mera coincidência? Lógico que não! A conexão tambor do EVA, nesse ano, inovou também com a parceria no camarote do Ilê na Castro Alves. Aliás,  diga-se de passagem, Saulo Fernandes, não apenas esteve presente em vários dos ens aios dos blocos afros como os convidou (junto com outros representantes da musica negra da Bahia) para participarem de seus shows de verão.

Da mesma forma não nos parece ser à toa, também, que a cantora Claudia Leitte tenha levado para a avenida nada mais, nada menos, que o tema África e a personagem “NegaLora” e que um dos grupos convidados para animar o Casarote de Daniela Mercury foi o Cortejo Afro. Se associarmos tudo isso a existência, já de algum tempo, do Afropopbrasileiro de Margarete Menezes, do Camarote Andante de Brown e outras manifestações não tão expressivas do ponto de vista da mídia mais ortodoxa, podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, de que apesar do trabalho de “desempoderamento” que algumas empresas  através dos meios de comunicação de massa (comerciais de lojas de eletrodomésticos, automóveis e cervejas), exercem ao associar suas marcas a apenas a um grupo restrito de personagens do carnaval, a força do conteúdo cultural do carnaval de Salvador tem cara, nome e, principalmente, lugares . A cara é preta, o nome é afro e a origem são lugares bem definidos de toda a cidade e não dos não lugares que alguns detentores dos meios de comunicação e da economia pouco inteligente tentam inventar a cada ano, em detrimento do fomento mais equitativo daqueles que de fato, dão suporte efetivo ao carnaval de Salvador.

COMO VICIAR NOSSAS MENINAS EM 300 MIL LIÇÕES

Direto do blog Escreva Lola Escreva

Os tempos definitivamente mudaram, só não tenho certeza se foram pra melhor. Tipo, quando eu era criança, não havia ninguém na minha turminha que tingisse o cabelo. E talvez até fosse divertido encher o rosto de blush, mas uma coisa era atacar o estojo de maquiagem da mamãe quando não tinha ninguém olhando, outra era ter o seu próprio estojo, e ficar se checando no espelho o tempo todo. Era extremamente raro alguma menininha adotar esse estilo de vida nos anos 70.
Já hoje é assim: há spas para crianças, e esses spas incluem, além da dieta obrigatória, tirar sobrancelhas e fazer depilação preventiva (lógico, porque assim como ninguém faz dieta pra ficar bonita, só pra ficar saudável, todo esse ritual da aparência não é visto como uma imposição estética, mas higiênica: é sujo ter pelos). Uma grande rede de supermercados acabou de lançar toda uma linha de maquiagem para meninas de 8 a 12 anos, as chamadas tweens (consumidoras no limiar entre a infância e a adolescência). Nos EUA, tweens já gastam cem milhões de dólares por mês em produtos de beleza (e olha que não vou nem mencionar essa praga de concurso de miss pra garotas de 5 anos). As meninas não falam mais em diversão como motivo para copiarem mulheres adultas. Hoje elas dizem que querem ser sexy, mas ser sexy pra quem aos nove anos? Pra si? Pra meninos que nessa fase ainda nem têm interesse pelo sexo oposto? Pra pedófilos?
Tem mais: as cirurgias plásticas para menores de 18 anos dobraram nos EUA na última década. Mais um dado: em 2005, a média de idade das americanas para começar a usar produtos de beleza era 17 anos. Apenas quatro anos depois, essa média já tinha caído pra 13 anos. Outro: uma estimativa aponta que meninas entre 11 e 14 anos são expostas a uma média de 500 anúncios por dia. Imagina o que isso faz pra autoestima.
Por aqui, segundo um estudo da Universidade Federal do Pernambuco, 90% das brasileirinhas entre 10 e 14 anos se acham gordas e fazem regime. Olha só que idade propícia pra se desenvolver doenças gravíssimas como bulimia e anorexia!
A revista Newsweek analisou as últimas tendências de beleza e constatou que uma menina americana de 10 anos, ao chegar aos 50, terá torrado quase 300 mil dólares — só com o seu cabelo e seu rosto! Vamos nos concentrar somente no que uma mocinha gasta com pedicure e manicure, e já dá pra pagar quatro anos de universidade nos EUA (e olha que universidade americana é quase tão cara quanto creminho anti-idade). Se essas meninas já estão obcecadas com rugas imaginárias aos oito anos, não quero nem pensar no que farão quando chegarem a uma idade em que rugas realmente existam.
Pareço exaltada? Pois é. Ainda estou esperando que alguém me explique que isso é bom pras meninas. Tem quem veja minhas queixas como uma tentativa ditatorial de lutar contra o consumismo. As garotas deveriam ter a liberdade de escolher o que consumir, ué. Mas de qual livre arbítrio estamos falando, cara pálida? Não há mais opção. Tente encontrar sapato sem salto para sua filhinha de seis anos, e depois a gente volta a conversar.
Sabe como lanchonetes de fast food anexam brinquedos aos seus hamburguers para que as crianças se tornem consumidoras pra vida toda? Quanto antes se fisga um cliente, mais fiel ele será ― de preferência, pro resto de sua miserável existência. Como isso é diferente de convencer meninas de cinco anos que elas não estarão completas se não estiverem usando batom? Vou fazer analogia com cigarro, se me permite. Por que quase todos os países proibiram propaganda que seduzisse os menores de idade a fumar? Porque ela funciona! Por exemplo, nos EUA, o personagem da marca Camel, Joe Camel, teve de ser extinto, por ser popular demais entre as crianças. E por que a indústria do cigarro tenta cativar seu consumidor quando ele é assim tão novinho? Porque ele tem menos acesso a campanhas anti-tabagistas, e menor poder de discernimento. Ele é mais facilmente influenciável. Dessa forma, esse consumidor-mirim crescerá associando os bons momentos da sua juventude com cigarro.
Certo, no cigarro, pra solidificar o vício, os fabricantes incluem nicotina e mil e um produtos tóxicos que fazem deixar de fumar algo muito, muito difícil. Ah, dirá você, mas fabricantes de produtos de beleza, ao alvejarem as menininhas, não se valem de substâncias viciantes. Não mesmo? Centenas de imagens por dia e toda uma associação de beleza com felicidade e aceitação (e, hoje em dia, com saúde e higiene!) não são viciantes? Pra mim isso soa como lavagem cerebral. Ah, mas dirá você novamente, cigarro faz mal pra saúde, já está provado, enquanto usar produtos de beleza, não. Bom, não sei, acho que é péssimo pruma sociedade submeter metade de sua população a uma ditadura da beleza, ainda mais quando essa metade é justamente a que ganha menos, e forçá-la a dedicar enorme parcela de seus rendimentos a produtos sem fiscalização, que geralmente nem cumprem o que prometem. Pra ser bonita, tem que consumir (não existe mulher feia, só existe mulher pobre, diz o ditado elitista). Pra ser feliz, tem que ser bonita. Pra ser mulher, tem que ser feminina (leia-se vaidosa). Isso tudo a gente ensina a nossas meninas desde a mais tenra idade. Sinceramente? Esses bombardeios eternos me parecem mais viciantes que uma fumacinha com nicotina.
Posted by lola aronovic

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: